Por muito tempo eu não soube responder essa pergunta, e talvez o mais honesto seja dizer que durante boa parte da minha vida eu nem cheguei a me fazer essa pergunta de verdade. Eu simplesmente fui vivendo, fazendo o que precisava ser feito no dia, tentando acertar aqui e ali, mas sem nunca parar para pensar seriamente no que significava ser homem, no sentido mais profundo da palavra.
Quando eu era mais novo, ser homem parecia algo automático, quase biológico, como se o simples fato de crescer, trabalhar, assumir algumas responsabilidades e aguentar certas pressões já fosse suficiente. Eu achava que bastava não demonstrar fraqueza, não depender de ninguém e seguir em frente. Nunca ninguém sentou comigo para explicar que ser homem não é só reagir à vida, mas aprender a se posicionar diante dela.
Com o tempo, comecei a perceber um incômodo difícil de explicar. Por fora, tudo parecia relativamente normal, mas por dentro havia uma sensação constante de desorganização. Eu tomava decisões sem muita clareza, adiava coisas importantes, empurrava responsabilidades para depois e, quando algo dava errado, era sempre mais fácil colocar a culpa nas circunstâncias, nas pessoas ou até na fase da vida. No fundo, eu estava tentando viver como adulto sem ter sido formado para isso.
Foi só mais tarde que comecei a entender que ser homem não é um estado que se alcança de uma vez, nem um título que alguém nos entrega. É um caminho que exige consciência, esforço e, principalmente, responsabilidade. E essa palavra, responsabilidade, demorou muito para ganhar peso real na minha vida. Antes, ela soava apenas como obrigação, algo pesado, quase injusto. Hoje, eu vejo que ela é justamente o que dá sentido e direção à vida de um homem.
A fé teve um papel importante nesse processo, mas não como algo mágico ou imediato. Não foi uma virada emocional, nem um momento espetacular. Foi mais como um chão que começou a se formar aos poucos, organizando o que antes estava solto. A fé começou a me mostrar que a vida não gira em torno das minhas vontades, dos meus sentimentos do momento ou das minhas desculpas. Ela me colocou diante da realidade de que crescer significa assumir aquilo que me cabe, mesmo quando é difícil, mesmo quando dói.
Aos poucos, fui percebendo que muitos homens vivem essa mesma confusão, ainda que não falem sobre isso. Trabalham, se relacionam, seguem a rotina, mas carregam por dentro uma sensação de que algo está fora do lugar. Não falta força, nem inteligência, nem boa intenção. Falta formação. Falta alguém dizer, com clareza e sem romantizar, que ser homem é aprender a sustentar decisões, a responder pelos próprios atos e a aceitar que a vida adulta exige renúncia.
Hoje, quando penso na pergunta “o que é ser homem, afinal?”, não penso em uma definição fechada ou em um ideal distante. Penso em um processo contínuo de amadurecimento, em aprender a colocar ordem onde antes havia confusão, em alinhar fé, trabalho, relações e escolhas cotidianas. Ser homem, para mim, tem menos a ver com aparência ou discurso e mais a ver com a disposição de crescer, mesmo quando isso exige rever a própria vida.
Esse espaço nasce exatamente dessa percepção. Não como alguém que chegou a um ponto final, mas como alguém que entendeu que não dá mais para viver no automático. Ser homem é um caminho que precisa ser trilhado com consciência, humildade e responsabilidade. E, para mim, tudo começou quando finalmente tive coragem de me fazer essa pergunta e parar para escutar a resposta que a própria vida começou a me dar.