Ninguém me ensinou a ser homem

Quando eu paro para pensar com mais calma, percebo que uma das grandes dificuldades da minha vida adulta foi aceitar que ninguém, em momento algum, realmente me ensinou a ser homem. Não estou falando de culpa direta, nem de apontar dedos, mas de constatar um fato simples: eu cresci sem uma formação clara sobre o que significava amadurecer de verdade.

Aprendi muitas coisas ao longo do caminho. Aprendi a trabalhar, a cumprir horários, a lidar com cobranças, a resolver problemas práticos. Mas ninguém me explicou como organizar a vida por dentro, como assumir responsabilidades sem revolta, como lidar com frustrações sem fugir, como sustentar escolhas quando elas começam a pesar. Essas coisas eu fui tentando aprender sozinho, errando mais do que acertando.

Durante muito tempo, achei que isso era normal, que todo homem dava um jeito e pronto. Eu via outros homens passando pelas mesmas dificuldades, cometendo erros parecidos, repetindo padrões, e isso acabava criando uma falsa sensação de normalidade. Se todo mundo estava meio perdido, então talvez fosse assim mesmo. Hoje eu vejo que essa normalização da desorientação cobra um preço alto com o tempo.

O mais complicado é que, quando ninguém ensina, a gente acaba aprendendo por tentativa e erro, e quase sempre o erro machuca alguém, machuca relacionamentos, machuca a própria história. Muitas decisões que tomei no impulso, na pressa ou no medo poderiam ter sido diferentes se eu tivesse tido referências mais claras. Não porque alguém teria resolvido a minha vida por mim, mas porque formação evita muitos desvios desnecessários.

Em algum momento, comecei a perceber que crescer não era apenas reagir às exigências da vida, mas assumir conscientemente aquilo que me cabia. E isso foi desconfortável, porque me obrigou a abandonar a ideia de que eu era apenas produto das circunstâncias. Eu precisei admitir que muita coisa que eu atribuía ao acaso era, na verdade, consequência direta da minha falta de maturidade.

A fé foi ganhando espaço nesse processo de forma muito concreta. Não como discurso bonito ou resposta pronta, mas como um chamado constante à responsabilidade. Aos poucos, fui entendendo que não dava mais para viver de improviso, empurrando decisões importantes com a barriga. A vida adulta exige mais do que boa vontade, exige estrutura interior.

Hoje, quando digo que ninguém me ensinou a ser homem, não falo isso com ressentimento. Falo com consciência. Reconhecer essa falta foi essencial para que eu começasse a buscar formação de verdade. Foi a partir daí que parei de esperar que as coisas simplesmente se resolvessem e comecei a assumir, com mais seriedade, o trabalho de me tornar um homem melhor do que eu fui ontem.

Esse aprendizado ainda está em andamento, e talvez nunca termine. Mas existe uma diferença enorme entre caminhar sem saber para onde se vai e caminhar com a consciência de que é preciso crescer. Para mim, tudo começou quando aceitei que ninguém tinha me ensinado, e que agora essa responsabilidade era minha.